O diálogo entre o setor do agronegócio brasileiro e o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva precisa ser reconstruído, segundo Ingo Plöger, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag). Em entrevista à Folha, Plöger disse que as relações durante o terceiro mandato de Lula foram difíceis e pediu a renovação da confiança e da cooperação após a eleição.
Plöger afirmou que Lula precisaria fazer um esforço significativo para amenizar as divisões no país, acrescentando que as escolhas dos eleitores devem ser respeitadas. Ele argumentou que os líderes de ambos os lados precisam estar dispostos a se reunir e discutir uma relação de longo prazo, com maior confiança mútua.
O agronegócio tem sido geralmente visto como resistente a Lula. Durante a campanha, seu adversário, o senador Flávio Bolsonaro, tentou se apresentar como mais próximo dos interesses rurais. Depois de perder a eleição, Bolsonaro deixou o Brasil e foi para os Estados Unidos, segundo a reportagem.
O setor registrou safras de grãos e ganhos de produtividade, além de ampliar o acesso a mercados estrangeiros. Ao mesmo tempo, enfrenta uma onda de pedidos de recuperação judicial e preocupações com o endividamento. Plöger atribuiu a pressão financeira a uma combinação de juros altos e preços internacionais fracos, que podem deixar os produtores sem margem suficiente para cobrir suas necessidades de fluxo de caixa.
Ele disse que os desafios não têm uma solução única e pediu medidas coordenadas, desenvolvidas por meio do diálogo e da negociação. Durante o terceiro governo Lula, o setor abriu mercados, mas também enfrentou tarifas elevadas e os efeitos de problemas climáticos. As enchentes históricas no Rio Grande do Sul aumentaram o peso das dívidas de alguns produtores do estado.
Os produtores também acompanham o risco de El Niño, que pode afetar a produção agrícola ao alterar os padrões de temperatura e de chuva. Plöger disse que agricultores e pecuaristas também poderiam ser significativamente afetados caso seja extinta a escala de seis dias de trabalho para um dia de descanso. Ele apontou a possibilidade de aumento dos custos e as dificuldades para reorganizar os horários de trabalho, observando que tarefas como ordenhar vacas, abastecer aviários e colher café não podem simplesmente parar nos fins de semana.
O plano de governo de Lula descreve o agronegócio como importante para a balança comercial e o crescimento econômico do Brasil. O documento promete fortalecer o crédito rural, ampliar os recursos do Plano Safra e oferecer taxas de juros compatíveis com a rentabilidade da atividade agropecuária. Também propõe ampliar as fontes de financiamento por meio dos mercados de capitais e de títulos do agronegócio, criar um programa nacional de resiliência climática nas áreas rurais e dar atenção especial ao seguro rural.
Fontes: Folha Mercado.