As empresas energéticas espanholas Repsol e Moeve registaram fortes aumentos de lucros nos primeiros nove meses de 2026, segundo números destacados numa análise do El País. A Repsol ganhou 5,006 mil milhões de euros, 325% mais do que no mesmo período do ano anterior, enquanto a Moeve ganhou 1,430 mil milhões de euros, um aumento de 481%, ou 140% numa base de lucro líquido ajustado.

A análise contesta a descrição dos ganhos como “lucros caídos do céu”, ou “beneficios caídos del cielo”. Argumenta que a fortuna extra não caiu do céu, mas veio de preços elevados de combustível, eletricidade e gás suportados por empresas e trabalhadores. As crises energéticas, diz, multiplicam a extração de rendas da economia produtiva e das famílias em benefício de poucos. O artigo relaciona os lucros energéticos adicionais com a subida dos preços do petróleo causada pela guerra com o Irão.

Em contrapartida, a economia espanhola não está em recessão e cresce muito mais depressa do que a Europa, mas a sua taxa de crescimento homóloga de 2,7% não se compara ao ritmo de aumento dos lucros das empresas energéticas. A análise aponta também para o setor financeiro: os seis principais bancos bateram recordes de lucro durante cinco anos, ganhando 29,253 mil milhões de euros nos primeiros nove meses de 2026, 15% mais do que um ano antes e o triplo do ritmo da economia em geral.

O artigo recorda uma anedota contada pelo economista José Luis Sampedro (1917-2013) no livro de 2005 “Escribir es vivir”, escrito com a poeta Olga Lucas (1947). Sampedro descreveu a Espanha em 1960, o ano seguinte ao Plano de Estabilização, quando a economia afundou mas os bancos ganharam muito. Um jornalista perguntou a um importante banqueiro como podiam os lucros subir enquanto a produção caía, e o banqueiro respondeu: “Não conseguimos evitá-lo.” A explicação de Sampedro era que o sistema estava desenhado para o banqueiro ganhar: se as transações caem, as taxas de juro podem compensar a perda esperada e até exceder os rendimentos.

O artigo cita também um exemplo dos Estados Unidos. Diz que a Democracy Now noticiou um estudo de democratas do Comité Económico Conjunto do Congresso que indicava que os investimentos do presidente Trump em ações de petróleo e gás tinham duplicado de valor no último ano por causa da guerra que escolheu contra o Irão. Cita Trump dizendo: “Essa será a manchete. Mas eu disse que não me importo. Vou dizê-lo: Estamos a fazer uma fortuna louca.”

Em termos de política, a análise observa que o governo espanhol tentou corrigir a distorção do mercado com um imposto extraordinário que arrecadou 1,695 mil milhões de euros aos bancos e 1,164 mil milhões de euros às empresas energéticas em 2024. Em 2025, porém, as empresas energéticas não contribuíram com nada depois de partidos de direita terem conseguido derrotar o imposto no Congresso. Para enfrentar o que o artigo chama de irracionalidade do sistema, diz que devem ser exploradas outras alternativas, como a participação pública em empresas cujos rendimentos não provêm da sua própria atividade.

Fontes: El País Economía.