A volatilidade nos mercados brasileiros após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva aumentou o interesse dos investidores por ativos de proteção e pela diversificação de carteiras, segundo analistas citados pela Folha. Entre as opções sugeridas estão títulos do governo e CDBs emitidos por bancos, além de ações de empresas de commodities e exportadoras.
O Ibovespa caiu 17,5% na semana passada, depois de alcançar o recorde de 200.000 pontos após o primeiro turno da votação. O real também se desvalorizou fortemente: o dólar subiu 9,18% ao longo da semana, sua maior alta semanal desde 2008. Na segunda-feira após a eleição, o principal índice da bolsa caiu mais de 13%, levando a B3 a interromper temporariamente as negociações, enquanto o dólar avançou 8,41% em relação ao real.
Matheus Spiess, estrategista da Empiricus Research, disse que empresas mais expostas a juros elevados, endividamento pesado e ciclos econômicos domésticos estão particularmente vulneráveis. As exportadoras podem se beneficiar de um real mais fraco, enquanto empresas que pagam dividendos confiáveis podem oferecer retornos mais estáveis. Spiess também destacou ativos reais, como imóveis e fundos imobiliários indexados à inflação, e disse que os investidores estão buscando aumentar a exposição internacional de suas carteiras.
O Itaú BBA favorece empresas de infraestrutura, incluindo concessionárias de serviços públicos e empresas de saneamento, cujos contratos são reajustados pela inflação e cujos fluxos de caixa tendem a ser mais estáveis. O banco estima retornos reais de 11% a 15% para essas empresas e considera os dividendos uma fonte importante de retorno quando os juros estão altos e os ganhos com a valorização das ações são limitados. Também identifica petróleo e gás, celulose e papel, bens de capital e materiais como setores voltados à exportação, mas ressalva que a exposição ao exterior não garante ganhos.
O BTG espera que o novo mandato de Lula apresente desafios, incluindo a necessidade de negociar com partidos de centro para aprovar medidas. O banco previu que o Ibovespa poderia cair para 170.000 pontos nas semanas após a eleição e que o real poderia se desvalorizar entre 10% e 15%. Entre as exportadoras, citou Gerdau, Suzano, Vale, Prio e WEG, além de empresas defensivas com balanços sólidos e caixa líquido, como Caixa Seguridade, Porto Seguro e Ambev.
Analistas dizem que a preocupação com a política fiscal do governo é uma das principais fontes de pressão sobre o mercado. A dívida bruta do Brasil chegou a 82,9% do PIB em setembro, seu nível mais alto desde 2021, de acordo com dados divulgados pelo Banco Central. A expectativa de continuidade de uma política fiscal expansionista pode elevar o prêmio de risco exigido pelos investidores, aumentar os juros futuros e encarecer o crédito para empresas e consumidores.
Investimentos de renda fixa podem atrair compradores em períodos de volatilidade, à medida que os investidores buscam emissores comparativamente mais seguros e líquidos, como o Tesouro Nacional e os bancos. No entanto, a alta dos juros afeta de maneiras diferentes quem já investe e quem pretende investir. Detentores de títulos prefixados ou indexados à inflação podem ter perdas temporárias se venderem antes do vencimento, enquanto novos compradores podem garantir rendimentos mais altos.
A planejadora financeira Aline Dantas disse que, na semana passada, o título prefixado do Tesouro com vencimento em 2029 oferecia rendimento de 14,88% ao ano, enquanto o título do Tesouro indexado à inflação com vencimento em 2032 pagava inflação mais 7,87%. Ela disse que os investidores devem escolher de acordo com o horizonte temporal de seus objetivos e considerar se podem manter um título até o vencimento. Opções pós-fixadas, como os títulos Tesouro Selic e os CDBs vinculados ao CDI, podem ser adequadas para reservas de emergência e objetivos de curto prazo, pois seus preços oscilam menos. Títulos indexados à inflação podem ser adequados para objetivos de longo prazo, enquanto os prefixados exigem mais cautela, porque seus valores são mais sensíveis a mudanças nas expectativas de inflação e de juros.
O Morgan Stanley alertou que, se o governo não enfrentar a trajetória da dívida, o Brasil poderá enfrentar dominância fiscal, situação em que o custo de financiamento da dívida pública limita a capacidade do Banco Central de controlar a inflação por meio dos juros. Nesse cenário, o banco projeta aumentos de 3 a 4 pontos percentuais nas taxas dos contratos futuros de DI e nos rendimentos dos títulos prefixados de longo prazo, que poderiam chegar a 18%. Os investidores que comprarem com as taxas atuais, em torno de 15%, poderiam então sofrer perdas decorrentes de ajustes a valor de mercado.
Para os investidores que buscam exposição ao dólar, analistas citados pela Folha disseram que comprar em parcelas pode reduzir o risco de investir o valor total a uma taxa de câmbio desfavorável. Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, disse que compras graduais e a diversificação internacional podem ajudar os investidores a evitar concentrar sua exposição em ativos brasileiros.
Os bancos veem risco de novas quedas do real. O Morgan Stanley espera que o dólar suba primeiro para R$ 5,50 e depois para entre R$ 5,60 e R$ 5,70 se os mercados exigirem um prêmio maior pelo risco fiscal; em um cenário mais pessimista, poderia se aproximar de R$ 6. O JPMorgan prevê R$ 5,50 nas próximas semanas, enquanto o UBS aponta R$ 5,40 como nível de referência inicial e afirma que a incerteza fiscal provavelmente continuará sendo a principal fonte de pressão sobre a moeda.
Fontes: Folha Mercado.