A empresa dinamarquesa de biotecnologia Genmab dobrou de valor em três meses, após uma série de resultados positivos de ensaios de medicamentos contra o câncer. Os ganhos deram impulso à sua estratégia de deter uma participação maior nos medicamentos que desenvolve e comercializa.

As ações da empresa subiram 48% na semana passada, incluindo um aumento de 29% em uma única sessão, após a divulgação de resultados do tratamento experimental petosemtamab. Foi o terceiro anúncio de sucesso da Genmab em ensaios de Fase 3 em outubro, após resultados positivos para o tratamento de câncer de ovário Rina-S e o medicamento para linfoma Epkinly.

A reação mais forte do mercado veio após o anúncio de 28 de outubro de que o petosemtamab, administrado com o Keytruda, da Merck, reduziu em 50% o risco de morte em comparação com o Keytruda isoladamente, em um ensaio com pacientes com câncer de cabeça e pescoço recorrente ou metastático. A Genmab também relatou taxas de resposta melhores e nenhum novo sinal de segurança. O CEO Jan van de Winkel afirmou que a combinação poderia vir a estabelecer um novo padrão de tratamento, observando, porém, que os dados completos ainda não foram publicados.

No ensaio de câncer de ovário, o Rina-S reduziu em 71% o risco de progressão da doença ou morte e em 57% o risco de morte, em comparação com a quimioterapia. Analistas do Barclays disseram que os resultados superaram as expectativas, mas alertaram que as comparações entre ensaios distintos têm limitações. Eles sugeriram que o medicamento poderia ser uma opção para alguns pacientes que não podem receber o Elahere, da AbbVie, ou cujo câncer progrediu após o tratamento com esse medicamento.

O Epkinly, desenvolvido pela Genmab em parceria com a AbbVie, reduziu em 51% o risco de progressão da doença ou morte quando combinado à quimioterapia padrão para o tratamento de linfoma difuso de grandes células B em pacientes que ainda não haviam recebido tratamento.

A trajetória da Genmab foi construída, em grande parte, com royalties de medicamentos desenvolvidos com outras empresas, incluindo o Darzalex, da Johnson & Johnson, e o Kesimpta, da Novartis. Van de Winkel afirmou que se espera que o Darzalex gere de US$ 16,5 bilhões a US$ 16,9 bilhões em vendas neste ano, e que a Genmab receba royalties de até 20%.

Agora, a empresa está usando essa receita para ampliar seu portfólio de medicamentos que possui integralmente ou nos quais tem uma participação mais direta. A Genmab adquiriu o petosemtamab por meio da compra da Merus por US$ 8 bilhões em 2025 e obteve o Rina-S na aquisição da ProfoundBio por US$ 1,8 bilhão em 2024. Ela é proprietária integral dos dois medicamentos, enquanto divide igualmente com a AbbVie os resultados comerciais do Epkinly.

A aquisição da Merus envolveu um risco financeiro substancial: a Genmab tomou emprestados US$ 5,5 bilhões para ajudar a financiar o negócio, contando com a receita de royalties como proteção caso o petosemtamab não tivesse sucesso. Van de Winkel afirmou que a empresa pretende deter a propriedade de uma parcela crescente de seus futuros medicamentos.

Os analistas veem potencial para o petosemtamab além de seu mercado-alvo inicial. A Jefferies estimou vendas globais anuais de pico de US$ 3,5 bilhões para o câncer de cabeça e pescoço recorrente ou metastático, com a possibilidade de outros US$ 3,5 bilhões caso o tratamento seja ampliado para a doença localmente avançada. Van de Winkel não apresentou uma estimativa de vendas, mas descreveu o medicamento como um possível produto de vários bilhões de dólares.

A Genmab é especializada em medicamentos à base de anticorpos, incluindo anticorpos biespecíficos, capazes de se ligar simultaneamente a dois alvos nas células cancerosas. O petosemtamab tem como alvos o EGFR e o LGR5, buscando interferir nos sinais que favorecem o crescimento das células cancerosas e estimular o sistema imunológico a atacar os tumores.

A empresa tem 15 ensaios de Fase 3 envolvendo seus três principais compostos. Ela também está ampliando as capacidades comerciais desenvolvidas para tratamentos já existentes, expandindo sua presença de vendas na Europa e buscando alcançar mais pacientes com câncer por meio de serviços de saúde comunitários nos Estados Unidos. Van de Winkel afirmou que quer que os medicamentos dos quais a Genmab é proprietária majoritária cheguem a cerca de 500.000 pacientes até a década de 2030, em comparação com menos de 30.000 hoje.

A Genmab deverá divulgar os resultados do terceiro trimestre em 5 de novembro. Van de Winkel reconheceu que deter uma participação maior em seus medicamentos também implica maior responsabilidade pelos custos dos ensaios, pelas aprovações regulatórias e pelas vendas, e que mudanças geopolíticas e pressões sobre os preços dos medicamentos poderiam afetar os planos de expansão da empresa. Ele disse que continua empenhado em construir uma empresa europeia de biotecnologia independente, apesar do possível interesse de grandes empresas farmacêuticas.

Fontes: CNBC Markets.