Christine Lagarde, a presidente de 70 anos do Banco Central Europeu (BCE), cultivou uma marca pessoal distinta através de suas roupas, usando frequentemente acessórios específicos para transmitir mensagens. Em momentos de alta tensão, ela usa um broche de coruja durante conferências de imprensa, uma escolha que a distingue dos tradicionais 'falcões' e 'pombos' da política monetária. Lagarde explicou à La Croix em sua última entrevista como presidente do BCE que a coruja representa Atena, simbolizando inteligência e sabedoria, mas serve principalmente como uma rejeição de rótulos. Ela enfatizou que não toma partido na política monetária, preferindo ser guiada pelos fatos e permanecer adaptável. Economistas que trabalharam com ela a descrevem como altamente inteligente e orientada para o consenso, notando sua capacidade de guiar debates tão eficazmente que outros frequentemente chegam às conclusões que ela pretendia.
A trajetória profissional de Lagarde é rara no mundo dominado por homens das altas finanças, especialmente para uma mulher. Ex-membro da equipe nacional de natação sincronizada da França durante sua adolescência, ela se formou em Direito na Universidade Paris X (Nanterre) e ingressou na prestigiada firma de advocacia Baker McKenzie em Chicago aos 25 anos. Tornou-se sócia dentro de seis anos e foi nomeada a primeira presidente mulher da firma em 1999. Entre 2005 e 2011, ela serviu como ministra na França sob vários governos, eventualmente assumindo a pasta econômica durante o colapso do Lehman Brothers e os estágios iniciais da crise do euro. Esse período deixou-a com uma condenação por negligência relacionada ao caso de corrupção Tapie envolvendo o ex-presidente Nicolas Sarkozy. Em 2011, ela substituiu Dominique Strauss-Kahn como Diretora-Gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), e oito anos depois, sucedeu Mario Draghi como presidente do BCE.
Diferentemente de muitos líderes franceses que frequentaram a elite École Nationale d'Administration, Lagarde não seguiu esse caminho tradicional. Ela é filha de professores e afirmou que suas memórias próximas, agendadas para lançamento no início de 2027, detalharão como uma garota pode ter sucesso sem nascer na família certa ou ter acesso a escolas de elite. O livro é dedicado às suas netas e a todas as meninas que aspiram ao avanço profissional. Embora rumores sugiram que ela possa assumir a presidência do Fórum Econômico Mundial ou retornar à política francesa, semelhante ao caminho de Draghi como primeiro-ministro italiano, fontes indicam que ela é improvável de fazer campanha na França rural devido à sua imagem de elite parisiense entre eleitores de esquerda e direita.
Seu mandato de sete anos no BCE foi marcado por desafios significativos. Seu primeiro grande teste ocorreu em março de 2020 durante a pandemia, quando um comentário sugerindo que o BCE não estava lá para estreitar as diferenças nos rendimentos dos títulos provocou pânico no mercado antes que ela esclarecesse sua posição na CNBC. Esse incidente ensinou-lhe o imenso poder de suas palavras. Posteriormente, o banco enfrentou uma inflação sem precedentes impulsionada pelas consequências da pandemia e pelo choque energético após a redução de Vladimir Putin das fornecimentos de gás para a Europa antes da invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022. O BCE atrasou o aumento das taxas de juros até julho de 2022, assumindo que a inflação seria temporária, mas os preços eventualmente dispararam acima de 10%. Para compensar esse atraso, o banco executou um aumento de taxas sem precedentes de -0,5% para 4% em 14 meses.
Lagarde está partindo sem um momento definidor comparável ao compromisso 'whatever it takes' de Draghi em 2012, no entanto, ela navegou por um nível de incerteza desconhecido por seus predecessores, incluindo a guerra comercial iniciada por Donald Trump e choques geopolíticos envolvendo o Irã. Ela afirmou que está deixando para ganhar a liberdade de se expressar sobre questões além da política monetária, observando que a neutralidade é o preço da independência no BCE, mas que suas palavras agora podem ajudar em assuntos com os quais ela se importa profundamente. Seu legado inclui uma mudança para decisões baseadas em dados tomadas reunião por reunião e um foco na análise de cenários em vez de previsões rígidas. Enquanto ela assume sua saída, o BCE enfrenta tensões contínuas relacionadas à inflação, crescimento e instabilidade política na França.
Fontes: El País Economía.