Milhares de aeronaves aposentadas estão armazenadas em pátios por todo o deserto de Sonora, no Arizona. Agora, à medida que os centros de dados elevam a demanda por eletricidade nos Estados Unidos, empresas estão removendo seus motores a jato e convertendo-os em geradores. Desenvolvedores de centros de dados que precisam de energia rapidamente estão comprando esses equipamentos, apesar das preocupações com sua eficiência e suas emissões.

As turbinas convertidas oferecem uma alternativa para empresas que enfrentam longas esperas para se conectar à rede elétrica ou obter turbinas convencionais a gás. O analista de energia Audun Martinsen, da Rystad Energy, disse que um centro de dados poderia entrar em operação em 24 meses usando essas unidades, em vez de esperar anos pelo acesso à rede. Ele descreveu a prioridade atual como obter energia o mais rápido possível, independentemente do custo ou da eficiência.

A tecnologia reaproveita um motor de aeronave para gerar eletricidade em vez de empuxo. Os trabalhadores removem a carcaça externa e o ventilador, modificam a câmara de combustão para queimar gás natural e, em seguida, conectam o eixo central a uma caixa de transmissão e a um gerador elétrico. Segundo Landon Tessmer, executivo da ProEnergy, cada uma das turbinas da empresa pode produzir 50 megawatts — energia suficiente para abastecer 15.000 residências.

A abordagem tem desvantagens. Turbinas de aeronaves reutilizadas tendem a ser menos eficientes e mais poluentes do que motores projetados para usinas convencionais a gás, o que significa que os centros de dados precisam de mais unidades para produzir a mesma quantidade de eletricidade. Defensores do meio ambiente criticaram a tendência, considerando-a um retrocesso. Patrick Anderson, advogado do Southern Environmental Law Center, disse que a geração de energia deveria se tornar mais limpa com o tempo, não mais poluente.

As preocupações ambientais ficam evidentes nas licenças para oito turbinas convertidas instaladas pela xAI, de Elon Musk, no Mississippi, segundo registros estaduais e imagens de satélite analisados pelo The New York Times. As licenças permitem que os geradores emitam monóxido de carbono a uma taxa duas vezes maior do que a permitida para outras turbinas no local e estabelecem um limite 25% maior para compostos orgânicos voláteis. Ambos os poluentes representam riscos significativos à saúde. Nem a xAI nem a ProEnergy comentaram as preocupações. O Google disse que optou por esperar pela eletricidade conectada à rede.

Várias empresas estão entrando nesse mercado. A ProEnergy converte uma turbina da General Electric comumente usada em aeronaves da Boeing. A FTAI Aviation, que aluga e repara motores a jato, lançou no ano passado uma divisão para converter motores de aeronaves aposentadas Boeing 737 e Airbus A320. Uma joint venture que envolve a FTAI assinou em julho um acordo de US$ 1,5 bilhão para fornecer turbinas convertidas a um desenvolvedor de centros de dados. A Boom Supersonic, inicialmente voltada a retomar as viagens aéreas comerciais supersônicas, também está mudando de rumo para usar seus motores a jato em centros de dados.

A escala do possível fornecimento é considerável: em janeiro, a Administração de Informação Energética dos EUA afirmou que os motores de 4.000 jatos militares aposentados em uma única base no deserto, perto de Tucson, poderiam gerar 40.000 megawatts de energia. Mas o especialista em aviação Scott Marchand questionou se motores convertidos poderiam ser uma fonte principal viável de energia para um enorme centro de dados de IA, citando os custos de manutenção, o consumo de combustível e a produção de calor.

A busca por fontes alternativas de energia ocorre enquanto empresas de IA enfrentam dificuldades para garantir eletricidade suficiente. Em fevereiro, Musk disse que a energia — e não os chips de computador — havia se tornado o principal gargalo para o desenvolvimento da IA, alertando que os chips poderiam se acumular sem serem usados. O governo Trump incentivou os centros de dados a gerar sua própria eletricidade em meio a preocupações de que sua construção pudesse elevar os preços da energia. Em um documento judicial relacionado a uma ação sobre os geradores da xAI, o governo argumentou que o caso ameaçava a segurança nacional por prejudicar o objetivo do presidente Donald Trump de alcançar a supremacia global em IA.

Fontes: Folha Mercado.