O banco central do Paraguai assumiu o controle do Ueno Bank e suspendeu seus serviços depois que o índice de solvência do banco digital caiu para 5,56%, menos da metade do mínimo regulatório de 12% do país. A intervenção pôs em dúvida a situação de um dos maiores bancos digitais do país, que tem 2,9 milhões de clientes, e provocou uma disputa política sobre os vínculos do governo com a instituição.
Anunciada por unanimidade pelo conselho do banco central na terça-feira, a medida deu início a um processo de resolução bancária que bloqueia os ativos e passivos da instituição enquanto as autoridades determinam como seus recursos serão administrados e quais obrigações poderão ser cumpridas. Clientes relataram que não conseguiam usar caixas eletrônicos nem acessar o internet banking.
As investigações identificaram deficiências nas avaliações de risco de crédito, inconsistências nas informações financeiras usadas para aprovar empréstimos e transações envolvendo empresas ligadas aos acionistas do banco. O então presidente do banco central, Carlos Carvallo, afirmou que os investigadores também haviam encontrado empréstimos concedidos a empresas ligadas ao grupo proprietário do Ueno.
O Ueno pertence ao Grupo Vázquez, liderado pelo empresário paraguaio Federico Miguel Vázquez, fundador e acionista controlador do banco. A instituição administra mais de US$ 850 milhões em fundos públicos, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social, o sistema previdenciário estatal do Paraguai. A interrupção dos serviços poderá afetar fundos associados a cerca de 32.000 aposentados.
O fundo paraguaio de garantia de depósitos cobre até 228,3 milhões de guaranis por pessoa, o equivalente a 75 salários mínimos. A autoridade monetária afirmou que o fundo poderia cobrir 97% dos depositantes do Ueno. Clientes com saldos superiores terão de aguardar uma avaliação final da autoridade de supervisão bancária para determinar quanto do valor excedente poderá ser recuperado.
O presidente Santiago Peña pediu que Carvallo renunciasse à presidência do banco central, saída que ocorreu na terça-feira, e nomeou o ex-chefe do banco central Raúl Vera Bogado para substituí-lo. Na quarta-feira, Peña sancionou uma lei aprovada pelo Congresso que prevê que os depositantes recebam parte dos fundos garantidos em até cinco dias.
Peña afirmou que a prioridade do governo era proteger as economias dos clientes e pediu aos grupos políticos que colocassem os interesses dos depositantes em primeiro lugar. O banco central descreveu a situação do Ueno como um caso isolado e afirmou que, em geral, o sistema financeiro do país era sólido e saudável.
A intervenção também voltou a colocar sob escrutínio os vínculos de Peña com o Ueno. Depois de sua eleição em 2023, ele nomeou Carvallo, então diretor-executivo do Ueno Bank, para chefiar o banco central, o que gerou críticas sobre um possível conflito de interesses. Peña também enfrentou questionamentos sobre antigos vínculos comerciais com o proprietário do banco. Em abril de 2025, ele disse à imprensa paraguaia que havia deixado de ser acionista da Ueno Holding no mês anterior. O ABC Color informou que sua participação correspondia a 1,58% do capital do banco. O banco central afirmou que Carvallo não participou de decisões regulatórias relativas ao Ueno.
Oito executivos do setor bancário foram presos. Ricardo Estigarribia, pré-candidato à Presidência pelo oposicionista PLRA, afirmou que o partido planeja apresentar um pedido de impeachment contra Peña e o vice-presidente Pedro Alliana. Alliana, mencionado como possível sucessor de Peña no Partido Colorado, que está no poder, afirmou que o governo deveria adotar uma postura firme para punir os responsáveis e proteger os clientes do Ueno.
Fontes: Folha Mercado.
