A economia da trapaça há muito oferece terreno fértil para pesquisas — e para os Prêmios Ig Nobel. Neste ano, o Ig Nobel de Economia foi concedido a Paul Piff, Daniel Stancato, Stéphane Côté, Rodolfo Mendoza-Denton e Dacher Keltner por descobrirem que pessoas de classes sociais mais altas têm maior probabilidade de roubar doces de crianças.

O prêmio reconhece pesquisas que podem trazer uma perspectiva diferente ao debate científico. Entre os trabalhos já premiados com o Ig Nobel estão estudos sobre mictórios resistentes a respingos e um experimento que enterrou e depois desenterrou mil pares de cuecas para avaliar a saúde do solo. Na economia, estudos sobre desonestidade examinaram como as pessoas se comportam quando podem trapacear sem consequências imediatas.

Em um artigo de 2004 para a The New York Times Magazine, Steven Levitt e Stephen Dubner descreveram Paul Feldman, um economista que entregava bagels a mais de 100 escritórios na região de Washington. Os clientes pagavam colocando dinheiro em uma caixa de honestidade sem supervisão. Feldman monitorou as taxas de pagamento e descobriu que os clientes tinham maior probabilidade de pagar em escritórios menores, onde o chefe era bem visto, durante recessões e após os ataques de 11 de setembro. Os bagels entregues nos andares executivos eram levados sem pagamento com mais frequência.

Outro estudo, de Raymond Fisman e Edward Miguel, usou multas de estacionamento não pagas emitidas contra diplomatas das Nações Unidas em Manhattan para examinar a corrupção. No fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, diplomatas com placas especiais podiam estacionar sem sofrer consequências financeiras por multas não pagas. Os pesquisadores descobriram que o número de multas não pagas associado a cada consulado estava fortemente relacionado às percepções de corrupção em seu país de origem. Os consulados da Dinamarca, Noruega e Suécia não acumularam multas não pagas durante os seis anos estudados, enquanto um diplomata kuwaitiano acumulou o equivalente a duas multas não pagas por dia útil ao longo de um ano.

Os pesquisadores também descobriram que as regras faziam diferença. Em 2002, Nova York revogou quase 200 placas diplomáticas, com o apoio do Departamento de Estado dos EUA. Após a ameaça de novas medidas, as infrações de estacionamento caíram 95% quase da noite para o dia.

A pesquisa acadêmica também se tornou um estudo de caso sobre desonestidade. Um artigo de 2012 argumentou que as pessoas tinham menor probabilidade de fazer declarações falsas quando assinavam um compromisso de honestidade no início de um formulário, em vez de no final. O artigo foi posteriormente retirado depois que os investigadores de dados Uri Simonsohn, Leif Nelson e Joe Simmons, que publicam como Data Colada, argumentaram que dois estudos que sustentavam sua conclusão continham dados manipulados.

A Data Colada também relatou suspeitas de falsificação de dados em outras pesquisas associadas a Dan Ariely e Francesca Gino. Ariely negou ter manipulado dados e disse que os problemas já estavam presentes quando os dados foram fornecidos por outras pessoas. Gino afirmou ter sido acusada falsamente de má conduta em pesquisa e que havia uma explicação legítima para as aparentes irregularidades.

Os casos levantam questões sobre como a má conduta e as práticas de pesquisa inadequadas podem passar despercebidas. Em conjunto, os estudos sobre pagamentos por bagels, estacionamento diplomático e dados acadêmicos apontam para a influência tanto dos incentivos pessoais quanto das regras que regem o comportamento.

Fontes: Folha Mercado.